terça-feira, outubro 07, 2014

E eu não fui convidado

Nos meus tempos de escola, era conhecido por fazer meus amigos chorarem de raiva, por que não conseguia controlar minhas brincadeiras. Eu não conseguia, mesmo. Podia ser uma história triste, uma paixão platônica, um problema congênito, mas eu não conseguia não brincar. E não era de propósito, simplesmente saía, como um tiro.
Mas com o passar do tempo, o mundo foi ficando tão chato que eu tive que aprender a me controlar. E claro, tive que amadurecer. O colegial não dura pra sempre.
Há mais de um ano, um amigo meu, daqueles que eu dividia lanche no primário se casou. Tudo bem, não nos víamos há pouco mais de um ano, mas, vamos lá, nos conhecemos em 1989. 
Hoje me chega uma mensagem no whatsapp:

- E ai, seu tranqueira! (sim, ele ainda fala essas coisas) Quando você tomar vergonha e ir lá em casa?

Eu não acreditei. Realmente não fiquei tão chateado. Sei que casamento é foda, tem muito gasto....mentira. Fiquei sim. Eu ia jogar Master System na casa dele. Ensinei ele a jogar. E aí resolvi me vingar do único jeito que sei. Sendo um filho da puta.

- Quando você me convidar pra alguma coisa, eu vou.

Aí veio a história (ao som de Enya):

"Tenho alguns convites comigo ainda. De pessoas que eu gostaria que estivessem no meu casamento, de coração. Vou provar, te mando a foto. Mas para não deixar o pessoal da escola chateado, resolvi não chamar ninguém. Pra você peço desculpas"

Eu esperava por essa conversa há anos.

- Para de mentira. Fala onde você tá morando que eu vou.
- Se você vier eu vou ficar muito feliz.
- Imagino, assim você se livra da sensação de ter um monte de gente estranha no seu casamento enquanto seus melhores amigos de infância ficaram sabendo pelo Facebook do seu primo e da sua esposa que você casou.
- Foi difícil, cara. Desculpa.
- Tranquilo, mano. Quando você casou mesmo?
- Abril de 2013.
- E agora você decidiu falar comigo?
- A nossa amizade é maior que isso tudo. Para de drama. Você vai se casar e vai passar por isso um dia.
- Sim, e você não vai ficar sabendo.
- Porra. Anota o endereço ai. (eu deveria divulgar o endereço. Mas ele só deu o número do prédio. O do apartamento ele dá depois. Sei...)
- Anotado!
- Legal que você vem! E de resto. Tudo certo?
- Mais ou menos. Tive depressão, muita terapia, remédios. 
- Nossa, Léo. Porque?
- Porque um amigo meu, que conheço desde 1989, não me convidou pro casamento dele em abril do ano passado.

Aí ele me ligou, já querendo saber se essa história de depressão era mais uma das brincadeiras idiotas que eu fazia na escola. Aí, rimos bastante, ele foi tentando se desculpar, dizendo que tinha sido uma cerimônia íntima. Mas desistiu dessa história quando eu eu disse que vi as fotos. (tinha banda, fogos de artifícios e whisky)
Aí disse pra ele não se preocupar, que é assim mesmo, que casar é caro e que quando eu casasse, não ia pensar nisso, iria convidá-lo sem pensar duas vezes. Mesmo que pra isso eu tivesse que deixar de convidar meus pais.

Ele riu e disse: "você vai falar disso por um bom tempo ainda né?"
"A vida toda, mano. A vida toda."





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