segunda-feira, junho 09, 2014

Por um sopro




Mais um sopro de Deus levou alguém de perto de mim. Neste ano, tem acontecido com frequência. Difícil explicar esses momentos, mesmo que eles venham a se repetir mais a cada dia. Dessa vez foi meu tio Zé. Meu tio se foi na última sexta. Mas eu e algumas outras pessoas acham que ele já tinha ido em 2009, quando seu filho, Daniel, teve sua vida roubada em um assalto. 
Meu tio nunca mais foi o mesmo. Ele, que sempre foi um cara explosivo, algumas vezes difícil de lidar, deu lugar a uma pessoa com o olhar perdido, distante de tudo e de todos. Me parecia estar preparado para qualquer coisa, afinal, o que pode ser pior do que a morte de um filho aos 30 anos? Não sei.
Ele decidiu não se cuidar. Decidiu não chorar, não sorrir. Decidiu aceitar o que a vida como ela é. E assim foi até a última sexta.
O coração, cheio de amor e também de dor, deu seus sinais, mas ele preferiu ignorá-los. 
Aos 64 anos ele foi encontrar com seu primogênito, com seu pai, com Deus. 
Eu, como de costume, acompanhei tudo de longe. Entreolhando a porta, vendo meu pai chorar, meus primos sofrerem no Facebook, pensando em como a minha avó, aos 88 anos, suportaria tudo isso.
Por tudo o que tem acontecido comigo nos últimos meses, perdas, medos, saúde meia-boca e por outras coisas que eu não sei explicar, resolvi ficar em casa, em um ato egoísta, por não aguentar mais ver a morte me tirando pessoas especiais. Eu sei que um dia vou pagar essa conta. A covardia, o egoísmo, tudo isso vai me assombrar quando eu menos esperar. Mas hoje, prefiro pensar que meu tio está vendo o mar, junto com o Dani, tomando aquela Kaiser horrorosa.
Divirtam-se por aí.



Nenhum comentário: