terça-feira, maio 13, 2014

Não tenho mais 21 anos

 

 
Tudo que eu precisava era colocar tudo pra fora, falar as verdades na cara de quem precisava ouvir, colocar o dedo na cara se for preciso. Mas eu não tenho mais 29 21 anos, então achei melhor me calar e engolir o sapo. Acordei às 2h da manhã, com uma sensação horrível, de sufocamento, um puta medo de morrer, dores no corpo. Com esse tanto de nego morrendo, comecei a achar que era minha vez. E agora? Grudei na Bíblia e desandei a rezar. 5h30 foi a última hora que vi no relógio. Dormi. Acordei com dores nas costas, a mesma sensação de aperto, medo. Caralho! Que desespero. Lá pelas 15h, sentia a mão formigar, o peito apertado, suor. Chamei o Danilo, que foi comigo ao Hospital Nove de Julho. Cerca de 700m do trabalho, que, graças à experiência na geografia paulistana do querido Liliu, se transformou em uns 20km, passando por ladeiras, manifestação de professores, tudo sob um sol consideravelmente quente.
Além de perceber que não era tão grave, pois se fosse teria morrido na rua, a caminhada me fez sentir melhor, mais leve. 
No pré-atendimento, a pressão estava ok, os batimentos levemente acelerados eram por conta da rota alternativa e eu fiquei lá, aguardando a hora do médico me atender. Quase uma hora entre triagem, eletrocardiograma, consulta e retorno, um alerta do médico: "Pegue leve. Isso é um quadro de estresse alto, com acúmulo de adrenalina no corpo, que acabou resultando em todos os sintomas. Se você não cuidar disso, pode entrar em um quadro de síndrome do pânico, que é muito difícil de tratar sem remédios. E acredite, você não vai querer tomar esse tipo de remédio. Seu coração tá ótimo, mas evite café, energético, evite se estressar. Faça exercícios para liberar a adrenalina, faça algo que você realmente goste e lembre-se; você não tem mais 21 anos."
Realmente, eu não tenho mais 21 anos. Faz tempo. Nos últimos anos trabalhei demais, no limite do meu organismo. Me diverti pouco, não viajei, não descansei, não tive um só dia em que eu esquecesse do trabalho, das contas, do carro, da responsabilidade. 
Enquanto eu dava risada com a enfermeira que me dizia que eu deveria falar mais palavrões, não guardar nada, pensei se isso é realmente necessário. Pensei na minha mãe, que estava tão desesperada que mandei uma foto pra ela se acalmar, na minha namorada que é um anjo na minha vida e vai ter que me aguentar por mais uns 50 anos, mais ou menos e até no puto do Danilo, que ficou comigo o tempo todo, (tanto que o médico já tava achando que a gente fazia um casal bonito) que estava preocupado e com a consciencia pesada por me fazer andar no meio de manifestantantes e subir ladeiras até o hospital.
Foi a primeira vez que eu engoli um sapo e meu organismo o rejeitou. Como todo mundo sabe, não nasci pra isso. E não farei isso de novo. Minha saúde é mais valiosa do que qualquer outra coisa que eu tenha conquistado nos últimos anos.
Com ela posso ir a qualquer lugar.

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